terça-feira

Nossa visão

Por que mais um blog com resenhas de livros?

Por uma razão bem concreta: as resenhas disponíveis no mercado não atingem o leitor.

Como podemos afirmar isso? Basta acompanhar os jornais e revistas - ou jornais - especializados. Assinadas por jornalistas ou acadêmicos, as resenhas de livros que vemos por aí pecam de duas formas: ora abusando do jornalismo (no primeiro caso) ou do excesso de referências acadêmicas (segundo caso). Onde fica o leitor, nisso tudo? Perdido. Sem saber se confia na atratividade jornalística do livro ou do autor ou se se deixa levar pelo academicismo galopante que assola as resenhas especializadas.

Claro que há exceções nisso tudo. Ou seja, há jornalistas que vêem muito além do jornalismo puro e simples, e acadêmicos que não querem usar a oportunidade apenas para demonstrarem domínio do seu metier. Mas as exceções são isso mesmo: exceções.

Este humilde blog pretende mostrar uma terceira via. Em textos pouco herméticos (como necessário) serão abordados livros dos mais variados matizes e áreas tendo como principal foco mostrar se vale realmente a pena comprá-los, lê-los e acumulá-los nas estantes. Ou seja, se realmente atingem seu alvo. Nesse esforço, espera-se que todos ganhem: o autor, a editora, o autor do blog e das resenhas e, mais importante, o leitor. É realmente o que esperamos que aconteça.


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Este blog segue os princípios do Creative Commons, permitindo a republicação de seus textos em qualquer meio, sem fins comerciais, citando-se o nome do autor e a fonte (Blog de Resenhas).

quinta-feira

Bagana na Chuva, de Mário Bortolotto (Editora Ciência do Acidente, Jales, SP)

O livro é de 2003. E parece que o tempo não passa, ou passou.


Há uma narrativa, sim, nesses 59 capítulos de tamanhos os mais diversos, em que aos poucos, e aos trancos e barrancos, Cardan, o herói ou anti-herói desta história sem começo nem fim, mostra uma fauna em progressão de homens, boys, putas, descoladas, frescas e de amigos, e em que estes, resolvidos, sim, mas a gastar a vida em meio a bebidas, preconceitos e discussões sem fim sobre assuntos que valem e que não valem a mínima pena, abrem as portas a um mundo em que o otimismo não tem lugar e em que a sensação de felicidade vem misturada a um amargor forte e a experiências passadas em meio a bebidas, mesas, ruas, vielas, banheiros, cozinhas, salas apinhadas de tranqueiras e, por que não, até em quedas d'água e sexo anal. Tudo muito temporário, provisório, humano, enfim.

O amigo Reinaldo Moraes, jornalista de antiga cepa, prefacia o livro. Se só o prefácio já mereceria uma resenha, breve, é claro, até para não superar o tamanho do primeiro, o livro ainda mais. Mas pouco seria explicar, se é que dá para explicar, o universo em que a trama, sem eira nem beira, se desenrola aos nossos olhos. Melhor seria dizer que por detrás da trama há muita música, blues e rock'n roll, alguma droga, bastante sexo, alguma pancadaria, bobagens as mais diversas, amores ingratos, desamores ainda mais, histórias em quadrinhos, filmes, robert de niro e por aí vai. Um universo que provoca, pois embora haja quem possa se sentir realmente à vontade reconhecendo aqui e acolá exemplos de mitologia blues e rock, não o mesmo pode acontecer com o comportamento dos personagens, todos aparentemente calcados em pessoas reais. Cardan, pelas semelhanças e tudo o mais, é, como é claro, o próprio Bortolotto. Mas e o Sbórnia, e a Paula, e n outros personagens que pululam aqui e acolá a depender das necessidades prementes desse que parece ser ainda algo menos que um herói sem caráter? Haverá heróis nessa bagaça toda?

A gente se sente guiado pelas mãos do sujeito. Embarcamos em situações inglórias, outras com final feliz, se é que existe realmente final feliz em qualquer história que se preze, e aos poucos sentimos sendo injetados em nós os ingredientes que fazem o universo dessa geração de quadrinhos, blues, sexo, drogas e rock n roll.

Termina cedo, o livrinho. Deixa uma impressão de querer mais, mas, ainda melhor, convida a ser lido e degustado novamente, pois o que de mais se encerra em tão poucas páginas não é bem um conteúdo, mas um estilo de vida expresso em palavras que nos dizem que algo vale, sim, a pena, só não se sabe por que, nem quando, nem a que ponto. O negócio é viver e deixar rolar.

Ah, sim, bagana é - eu não sabia - bituca de cigarro.

segunda-feira

Fratura Exposta, de Cassiano Antico


Ganhei o livro do Cassiano na mesma noite em que nos conhecemos. Estávamos lá no teatro do Marião, bebendo - eu, a minha primeira long neck, acreditem se quiserem -, e fiquei sabendo (na verdade lembrei) do livro dele, com a inconfundível ilustração de capa do Kitagawa, amigo comum. Ele foi pegar no carro, separou para vários amigos e me deu "essas maltraçadas feitas com o coração".
Os textos são curtos e grossos, com o perdão da expressão. Não são literatura, como disse o Bac certa noite, mas são algo que toca. Não nego que já no primeiro texto chorei. E iria chorar várias outras vezes, para deleite do Cassiano. O fato é que ele não perdoa, nem a si nem aos outros, mas como ser humano mortal e ainda por cima humano perdoa, perdoa tudo.
São tocantes os textos em que ele se desmancha em agradecimentos aos parentes. Para um estranho isso pode não ser nada. Afinal, a quem interessa tantas loas para pessoas que sequer conhecemos? Mas a sinceridade por trás das palavras comove. Quase sentimos palpáveis os homenageados, a maioria que já se foram.
Mas da metade para o fim a conversa muda de figura. Começam a aparecer relatos estranhos de quando o Cassiano se drogava e aprontava numa cidade do interior de São Paulo. Não sabemos muito bem o que acontece, os relatos parece que flutuam no ar enquanto o bicho pega. E pega mesmo. Carro batido dos dois lados, pela frente e pela trás, relatos de pico, relatos de excessos que fizeram do Cassiano o que é hoje (?). Explico. O Cassiano é um sujeito intenso. Diz logo a que veio. Se gosta de você, gosta. Se não, esquece de você. Ele diz o que quer. Expressa-se com palavras, gestos, olhares, o corpo, diz claramente o que ele quer. Nem vou dizer o que ele disse da última vez que o vi, mas pude ver que ele disse porque sabia o que iria acontecer. Previu o futuro imediato. Do qual tirou todo proveito.
O livro do Cassiano, como ele mesmo diz, foi lido por gente de todo tipo. Gente de peso gostaria de implantá-lo em cursos do ensino médio. O livro parece ser eficaz em aproximar gerações. A do Cassiano ou mesmo outras. O livro, como o próprio nome diz, é uma fratura exposta, título sugerido pelo Marião, que o prefacia. A orelha coube ao Brum, o guitarrista, outro sujeito de excessos e de vida exposta a torto e a direito sem vergonha de se ser feliz. 

Atire no Dramaturgo, de Mário Bortolotto

O Marião editou a primeira coletânea de textos do seu blog há vários anos. Só agora, após ler sua segunda coletânea, me senti atraído pelo livro. Sei lá, eu queria ler mais textos do cara e a coletânea mais recente acabou tão de repente.
Há algo nestes textos mais tosco, mais on the road. Muitos deles tratam dos maus hábitos do protagonista, maus porque ele mesmo os rotula de maus, mas maus também porque realmente é meio foda se deparar com um sujeito que se mete a dar opinião meio bêbado e que se mete em encrencas por - segundo diz - não medir as consequências dos seus atos rasteiros. O Marião diz, nos textos, lamentar que isso assim aconteça, mas ao mesmo tempo diz não se arrepender.
Mas o livro não é só disso. Quase todos os textos, novamente curtos, são memórias. Acontecimentos interessantes, outros apenas curiosos, histórias de amigos, histórias de fracassos, e por aí vai. O livro parece até mais denso que o outro, embora bem menor.
Eu costumo não nutrir muita simpatia por coletâneas. Esse foi um dos motivos por nem mesmo ter comprado as coletâneas de textos do Gerald (o Thomas), de quem gosto muito (como encenador e como pessoa). Mas preciso me render. Na internet os textos parecem meio soltos, sem nada que os una, sem uma espécie de enredo - embora este muitas vezes nem exista mesmo. Em livro, há algo mais substancioso a degustar. Numa espécie de analogia, é como beber uma dose ou a garrafa inteira. Uma dose é legal mas sempre deixa algo a desejar. A garrafa inteira é foda, mas é gostoso, apesar da ressaca posterior.
Conselho, então. Vão lá no teatro Cemitério (Augusta, 384), peçam à Fernanda para dar uma olhada e se gostarem, bom, levem então. Se no final não gostarem, paciência. Mas há conteúdo mais do que suficiente para agradar os mais curiosos nesse cara chamado Marião - que acaba de me dizer estar com preguiça e que por isso não poderei passar a madrugada no bar dele bebendo sem parar. 

Os Anos do Furacão, de Mário Bortolotto

Segunda coletânea de textos escritos para o blog do escritor Mário Bortolotto, sendo este também diretor do Grupo Cemitério de Automóveis de teatro, atividade em que é mais conhecido, Os Anos do Furacão (Realejo, Santos) confunde-se com uma bebida, a ser sorvida e degustada aos poucos.
São todos textos curtos. Impressos numa fonte grande. Não dá para saber se são cronológicos. No segundo terço do livro, de repente as páginas tornam-se pretas. São quando muito 20 páginas assim. Essas páginas narram, de um ponto de vista bem particular, como se deu o assalto aos Parlapatões e as agressões de que Mário foi vítima, levando três tiros que quase o matam. Há agradecimentos e o escambau. Nota-se que o acontecimento dividiu águas. Mas o tom continua o mesmo. Nada de lágrimas ou lamentos. O Mário não desiste de assumir o seu lugar privilegiado na avaliação do seu entorno.
No fim, sobram páginas mais recentes. Até o momento em que ele avalia o ano que passou (2012) e imagina o que virá. Mas ao que parece ele não guarda mais ilusões - se é que guardou alguma vez.
Comprei o livro no lançamento e o Mário pôs lá uma dedicatória. "Que os próximos anos nos tragam momentos com tempestades mais amenas". Engraçado, isso. Encontrei o próprio algumas horas depois de haver concluído a leitura. Disse eu que o livro acabou cedo. E foi mesmo. Anotei isso na última página.
O Mário é um cara que ousou trilhar um caminho próprio, acompanhado por amigos (que é o que ele mais preza), sofrendo decepções e ausência de reconhecimento (ele sempre brinca que ninguém vai assistir as peças dele, o que é meia verdade) e opondo-se a critérios de fora como avalistas ou não do seu trabalho. Ele diz que sabia a encrenca em que havia se metido: viver de teatro, fazer o que gosta e consumir o que aprecia. Por consumo, diga-se livros, cds, dvds e, é claro, bebida, muita bebida. De todos os 30 anos em que insiste, conseguiu comprar uma kitchenete no centro de São Paulo e - agora - um teatro (o Teatro Cemitério de Automóveis, na rua Augusta, 384, São Paulo, SP) em parceria com uma amiga, a Dani, aliás, gente boníssima e atriz de primeira.
A quem pensa que ler o livro é apenas adentrar no universo de um teimoso pelo teatro, eu diria que não é bem assim. O Mário não elenca pormenorizadamente as influências que captou durante toda sua trajetória, como se fosse explicar uma e outra coisa, mas estão lá em negrito muitas das pessoas, personalidades, artistas, obras e o escambau que fazem do seu teatro tão gostoso de ser digerido (quanto ao teatro, falo aqui com certa suspeição, dado que assisto as peças do grupo n vezes, mais vezes do que quaisquer outras peças de quaisquer outros grupos. Ele até diz achar estranho. Não é, é que eu gosto. Eu nunca me satisfaço em assistir mais e mais. Sinto até saudade dos personagens, vai entender). Tem lugar para muita gente, indo de Bukovski, Kerouac, Cash e muitos outros. O Mário é um cara que não se gaba. Ele vê o que gosta, fala com quem quer e o que quer. Não acha que a opinião dele vale mais do que qualquer outra, nem acha que outra opinião, de quem quer que seja, valha tanto mais. Ele bebe do blues. Ok. Mas tem certa restrição a ser chamado (por qualquer um) de bluesman (ele adora quando um amigo o chama disso). Ele adora rock. Mas não gosta de muito pretenso rock. Ele assiste outros caras, sim. Mas não comenta com qualquer um. Não se mete a dar opinião a torto e a direito (já foi assim). Ele leu a Ilíada com 12 anos, saca. Difícil achar algo que realmente o surpreenda. O ser humano é humano demais para surpreender quem resolveu trilhar o caminho mais árduo.
Mais é demais. Peguem o livro nas mãos, folheiem-no e avaliem. Se gostarem, tudo bem. Se não, tudo bem também. Palavras do Mário.

sexta-feira

América (de Andy Warhol)

andy warhol andava com a máquina fotográfica para lá e para cá. dele resultaram milhares de fotos.


andy warhol era um fanático pela américa. descendente de imigrantes rutenos, ele aprendeu a ver a américa com seus próprios olhos, que eram especiais por abordarem o objeto sem qualquer necessidade de complacência com qualquer crítica. crescendo meio isolado por diversas doenças, warhol acostumou-se a ver o mundo de soslaio, distante, frio até.

mas por trás de tanta frieza havia um ser humano compassivo. um ser humano que via a superficialidade, sua matéria-prima, como uma festa do óbvio.

américa, seu livro, é composto por textos relativamente breves e pode ser lido em poucas horas. não é um tratado de nada, e os textos simplesmente acompanham as fotos - algumas descritas, mas pode ser algo mais. os textos não versam por temas especiais, nem se propõem definitivos em porra nenhuma. são simplesmente textos que acompanham fotos ou são por elas acompanhados. o livro é isso.

lá, warhol defende o por quê dos eua se chamaram américa. ninguém teve a idéia antes. tem razão.

lá, warhol defende banhos públicos para fazer com que as pessoas de rua consigam se entrosar na sociedade sem serem expulsos de onde quer que eles forem.

lá, warhol explica o porquê de todos buscarem o sucesso, a novidade de amanhã, e por quê quase todos dão com os burros n'água. é lindo ver como escreve de forma limpa e singela, sem ser necessário captar nada por trás do que diz. ele não tem subtexto, como o meu amigos luís capucho. diz simplesmente o que quer dizer.

as fotos não têm nada demais. mas todas têm um ponto em comum. o que se vê é o que se quer mostrar. tudo é uma descoberta. não há essa chatice de buscar mensagem em fotos com efeitos desse ou desse outro jeito. ou de encontrar poesia. não há poesia. há a foto e pronto. é sobremaneira saudável ver o mundo dessa forma.

não diria que este é um livro obrigatório para adentrar nesse universo de que o warhol retirou a tampa. há livros mais esclarecedores, com mais fontes, com maior profundidade ou mesmo discussões de maior relevãncia. mas para quem vê com os olhos américa é uma boa entrada nesse cardápio extenso que começou nos eua de meados dos 60.

O que ela quer (de Martha Nowill)

não gosto da poesia que vejo por aí.


não adianta me indicarem um ou outro.

acho tudo muito fraco e não me fascina.

além do que acho um porre esse negócio de ter algo a dizer.

diz logo e não enche o saco, dá vontade de dizer.

ah, tem uma experiência interna insuspeitada, legal. guarda para você que tenho mais o que fazer.

fui ao lançamento do livro em questão indicado pela marcela lordy, assistente de direção que nos deu uma oficina de cinema.

qual a minha surpresa de descobrir que a autora era aquela garota que já vi vezes sem conta em lugares os mais diversos e que eu não soube aquilatar.

queria ler algo antes de me dispor a comprar. li e gostei. comprei. ela pôs uma dedicatória adequada: espero que estes poemas cheguem em você! (com ! e tudo)

o livro é pequenininho.

na capa, como que fotogramas da própria. dá para ver que é ela mesma. com os peitos como diz nos poemas. e os cavalos. e as flores. o telefone e o escambau.

o livro tá meio que cheio de erros de revisão. mas vamos ao que importa.

a martha devolveu-me o gosto pelo inusitado.

seus poemas, não todos, quebram as pernas. vão aonde não esperamos. parece haver sempre uma surpresa à frente.

ou são diretos. curtíssimos. definitivos.

dá para notar que ela se apresenta. ela diz o que ela quer.

deixo a citação de trechos para a ivana arruda leite, que faz uma orelha.

meto-me a lembrar o que senti ao lê-los, aos poemas.

tudo começa com o nascimento, não é mesmo? ela nos conduz ao bosque em que cresceu. em quatro breves estrofes. só.

em seguida se mete a contar produtos químicos. sim, mas é por meio deles que ela nos apresenta a si mesma e às suas particularidades. o aspirar gasolina - que me leva à mesma sensação. o ardor do primeiro desodorante. e por aí vai.

há reminiscências à mãe, aos homens que rondeiam, às inseguranças e inadequações - ou busca de adequações - no inadequado, olha só.

há o correr de estrofes que guardam segredos e que nos fazem sentir, não lendo algumas frases rasteiras, mas entrando em intimidades restritas. sentimos a pessoa atrás delas. guardamo-la conosco.

há poemas (levemente) dispensáveis. especialmente os facilmente decifráveis. ou aqueles que fazem uso claro de livres associações - que porre, isto. mas em geral são estrofes expressivas. que começam no meio de situações. que concentram aspirações inalcançáveis. veja-se por exemplo (não resisto e me desdigo) "até então/ eu não tinha sofrido de amor". não é lindo? só isso. (e tudo a ver comigo, hoje).

o poema que dá nome ao livrinho é quem sabe o melhor de todos. longo, mas não muito, o suficiente para manter a surpresa. para reter a saciedade inalcançável do sentido decifrado.

pela surpresa de alguns recursos, supro-me de um gosto há bastante tempo perdido.

e pela referência a situações comuns a todo homem/mulher adulto meio perdido (quem não está?), em companhia.

não costumo elogiar livrinhos de poucas palavras. mas é bom. é, sim.

a editora é a edith.